sexta-feira, 26 de março de 2010

ENCONTRO DO DIA 25.03.2010 - Prof. Dr. Maurício Abdalla

Olá,

Em continuidade aos trabalhos do curso, e na sequência do nosso cronograma, ontem tivemos a presença (25.03.2010) e o privilégio de assistir à brilhante intervenção do Prof. Dr. Maurício Abdalla Guerrieri, que abordou elementos da filosofia de F. Hegel, uma das principais fontes da filosofia marxiana (de Marx).
  • TEXTOS SOBRE HEGEL

A Filosofia de Hegel

  
Ronie Silveira

Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu em Stuttgart na Alemanha em 27 de agosto de 1770 e faleceu em Berlin em 1830. Em 1788 entrou para um seminário de teologia protestante em Tübingen. Nesse seminário travou amizade com Schelling e Hölderlin. Em 1793 Hegel renunciou à profissão de pastor e até 1796 trabalhou como preceptor em Berna, na Suíça. Depois disso, mudou-se para Frankfurt onde permaneceu até 1800 - ainda como preceptor. Em 1801 ingressou como livre-docente da Universidade de Jena e em 1816 foi nomeado professor na Universidade de Heildeberg. Em 1818 transferiu-se para a Universidade de Berlim da qual se tornou reitor em 1829.

O objetivo que impulsionou originalmente a Filosofia de Hegel foi a reconstituição de um ideal cristalizado na imagem da Grécia Antiga. Esse ideal personificava a busca da liberdade. Não a liberdade subjetiva e privada como nós a entendemos hoje. O que esse ideal personificava era uma noção de liberdade completa sem a presença da alteridade e da diferença. Uma liberdade, portanto, que pelas suas próprias características implicava uma consumação ligada ao infinito: sua realização deveria eliminar toda espécie de separação entre as dimensões da vida. Assim, em contraposição a um presente caracterizado pela cisão entre governados e governantes, entre Deus e os homens e entre Política e Religião, a Grécia Antiga representava, para Hegel e muitos de sua geração, um ideal de harmonia e de identidade entre esses vários aspectos. Liberdade, então significava uma vida plena ou o reestabelecimento da juventude perdida da civilização ocidental.

Entretanto, o amadurecimento do pensamento de Hegel conduziu-o a uma posição diferente e antagônica com relação à restauração do mundo grego. A noção de retorno cedeu terreno ao reconhecimento da riqueza e da peculiaridade do presente histórico. Também tornou-se evidente a precariedade da liberdade antiga. Mesmo abandonando a busca pela restauração da Grécia Antiga, o objetivo da liberdade ou da vida plena permaneceu orientando a Filosofia de Hegel em sua formulação definitiva.
Se queremos eliminar toda a exclusão, devemos iniciar por aquela que está presente no modo como o conhecimento ocorre. Assim, o que sei é algo que sei de outra coisa, de algo real. Então, o que sei não é a própria realidade, mas um saber relativo a ela. Todo saber está, portanto, fora do ser. Quando conhecemos produzimos uma alienação, uma diferença entre o saber e o ser. Se entendermos o conhecimento dessa maneira, fazemos proliferar essa diferença e essa alienação. A necessidade de eliminação dessa alienação levou Hegel a formular uma noção muito peculiar de conhecimento. O motivo que leva o conhecimento a se constituir como um saber fora do ser é a consciência. É porque a consciência não é o objeto do conhecimento que sua apreensão do ser produz outra coisa que não o próprio ser. Mesmo quando a consciência reflete sobre si mesma, ela se toma como se fosse outra e, portanto, seu saber sobre si mesma ainda é um saber diferente do que ela é. Mas Hegel não proporá que eliminemos a consciência para evitar a alienação. Isso significaria afirmar que o verdadeiro conhecimento deve ser operado por outras modalidades que não aquelas próprias da consciência – como o sentimento ou a emoção, por exemplo. Hegel não cai nessa armadilha da irracionalidade. Ele afirmará que a consciência deve ser conduzida a um estágio no qual não haja mais a alienação – mas isso deve ser produto do esforço da consciência e não sua negação.
Esse processo pelo qual a consciência parte de um hipotético estado bruto e chega a identificar o saber com o ser é descrito por Hegel na Fenomenologia do Espírito. O saber absoluto é um saber de si, isto é, ele é um conhecimento que não produz um saber exterior àquilo que é conhecido. Para que isso possa ocorrer, o conhecimento não pode ser diferente da realidade ou o contrário: o modo como as coisas são é o mesmo modo pelo qual elas são conhecidas. Mas isso obviamente é muito diferente do conhecimento empírico com o qual estamos habituados a lidar no nosso cotidiano.


A TEORIA CRÍTICA VAI AO CINEMA



LOUREIRO, Robson & ZUIN, Antônio Álvaro Soares (Orgs.)

 
Publicação: 2010
Páginas: 233
Acessar: http://www.secretariadecultura.ufes.br/editora_catalogo.php?id_menu=47






INDÚSTRIA CULTURAL E EDUCAÇÃO EM TEMPOS "PÓS-MODERNOS"



Autores: Robson Loureiro/Sandra S. Della Fonte;
Editora: Papirus Editora Edição: 01
Área: Educação
Coleção: Papirus educação Código: 978853080713 ISBN: 85-308-0713-8
Lançamento: 30/05/2003
Ano 1ª Edição: 2003
Acabamento: Colado e costurado
Encadernação: brochura
Nº Páginas: 112 Orelha: Sim
Público Alvo: Acadêmicos do campo das Ciências Humanas, Filosofia e Artes

  • Sinopse

Quando se tenta caracterizar a sociedade contemporânea, geralmente se recorre ao termo "pós-moderno". Estamos vivendo em uma era de acelerado desenvolvimento tecnológico, em que a máquina perdeu seu lugar de destaque para a informação. Jogos eletrônicos, programas televisivos, vídeos e Internet passaram a fazer parte de nosso cotidiano, disseminando idéias, conhecimentos, hábitos, juízos éticos e estéticos que influenciam nossa maneira de ver e de lidar com a realidade. Nesse livro, os autores refletem sobre os desafios enfrentados pela educação escolar nesse cenário. Inserida na lógica da indústria cultural, a produção imagética acaba por transmitir valores vinculados ao consumo. Uma leitura crítica da imagem implica a decodificação dos interesses sociais nela presentes e a possibilidade de outras leituras, de interpretações variadas. Dentro dos limites que enfrenta e das contradições sociais existentes, a escola deve participar do esforço de formação de cidadãos críticos, conscientes, na contracorrente das forças de mercantilização da cultura e da vida.

  • Sumário
INTRODUÇÃO


1. EDUCAÇÃO EM "TEMPO PÓS-MODERNO": QUE TEMPO É ESSE?


O discurso pós-moderno na educação
Sobre o conceito de pós-modernidade
Pós-modernidade: O mal-estar na modernidade


2. O PAPEL PEDAGÓGICO DOS MEDIA IMAGÉTICO-ELETRÔNICOS NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA


A mundialização da imagem
A fetichização da mídia imagético-eletrônica
Mídia imagético-eletrônica: O fetiche da imagem e a pseudo-democracia ocidental
Os monopólios televisivos no Brasil


3. INDÚSTRIA CULTURAL E EDUCAÇÃO: ENTRE A FORMAÇÃO E A SEMIFORMAÇÃO


Indústria cultural: Rastreando o conceito
Os pequenos cidadãos-clientes
Pokemon: O filme
Indústria cultural e a lógica do mercado: Consumo, logo existo!
Crítica à passividade total: O espectador e a indústria cultural

4. INDÚSTRIA CULTURAL E EDUCAÇÃO: É POSSÍVEL UMA EDUCAÇÃO DOS SENTIDOS?

Os sentidos humanos: Rumo a uma educação estética
Estética e a "era da imagem"
Cinema e a "educação do olhar"
Notas sobre o cinema na teoria crítica
Educação escolar e lazer

CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS







sábado, 20 de março de 2010

INFORMES


  • MONITORAS DO NEPEFIL
Esquecemos de apresentar a Luciana, que também, junto com Tamiris, é monitora do NEPEFIL.

  • BLOG DO CURSO: Para quem desejar refrescar a memória, pode conferir http://classicosdateoriacritica.blogspot.com/ - em particular:
• PROJETO DE CURSO QUINTAS FILOSÓFICAS - Os clássico...

• SÉCULO XIX - ASPECTOS HISTÓRICOS

• Karl Marx - Apontamentos Biográficos

• CARTA DE KARL MARX AO PAI EM TRIER - 1837

  • PRÓXIMO ENCONTRO: 25.03.2010 - Teremos a participação de mais um colega/Professor, fundador do NEPEFIL. Ele vai tecer considerações sobre a Filosofia de F. Hegel;

  • ATENÇÃO: Nosso próximo encontro será na sala 25, 2° piso do prédio do IC-IV, Centro de Educação. A sala 25 é a última do corredor, no 2° piso próxima ao toilet masculino. Solicitamos chegar no horário, 14h.

Boaventura de Souza Santos - Guinada à esquerda?

Carta Maior
Quarta-feira, 24 de setembro de 2008
DEBATE ABERTO

Boaventura de Sousa Santos

  • O impensável aconteceu
O Estado deixou de ser o problema para voltar a ser a solução; cada país tem o direito de fazer prevalecer o que entende ser o interesse nacional contra os ditames da globalização; o mercado não é, por si, racional e eficiente, apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade e ineficiência enquanto estas não atingirem o nível de auto-destruição.

A palavra não aparece na mídia norte-americana, mas é disso que se trata: nacionalização. Perante as falências ocorridas, anunciadas ou iminentes de importantes bancos de investimento, das duas maiores sociedades hipotecárias do país e da maior seguradora do mundo, o governo dos EUA decidiu assumir o controle direto de uma parte importante do sistema financeiro.
A medida não é inédita, pois o Governo interveio em outros momentos de crise profunda: em 1792 (no mandato do primeiro presidente do país), em 1907 (neste caso, o papel central na resolução da crise coube ao grande banco de então, J.P. Morgan, hoje, Morgan Stanley, também em risco), em 1929 (a grande depressão que durou até à Segunda Guerra Mundial: em 1933, 1000 norte americanos por dia perdiam as suas casas a favor dos bancos) e 1985 (a crise das sociedades de poupança).
O que é novo na intervenção em curso é a sua magnitude e o fato de ela ocorrer ao fim de trinta anos de evangelização neoliberal conduzida com mão de ferro a nível global pelos EUA e pelas instituições financeiras por eles controladas, FMI e o Banco Mundial: mercados livres e, porque livres, eficientes; privatizações; desregulamentação; Estado fora da economia porque inerentemente corrupto e ineficiente; eliminação de restrições à acumulação de riqueza e à correspondente produção de miséria social.
Foi com estas receitas que se 'resolveram' as crises financeiras da América Latina e da Ásia e que se impuseram ajustamentos estruturais em dezenas de países. Foi também com elas que milhões de pessoas foram lançadas no desemprego, perderam as suas terras ou os seus direitos laborais, tiveram de emigrar.
À luz disto, o impensável aconteceu: o Estado deixou de ser o problema para voltar a ser a solução; cada país tem o direito de fazer prevalecer o que entende ser o interesse nacional contra os ditames da globalização; o mercado não é, por si, racional e eficiente, apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade e ineficiência enquanto estas não atingirem o nível de auto-destruição; o capital tem sempre o Estado à sua disposição e, consoante os ciclos, ora por via da regulação ora por via da desregulação. Esta não é a crise final do capitalismo e, mesmo se fosse, talvez a esquerda não soubesse o que fazer dela, tão generalizada foi a sua conversão ao evangelho neoliberal.
Muito continuará como dantes: o espírito individualista, egoísta e anti-social que anima o capitalismo; o fato de que a fatura das crises é sempre paga por quem nada contribuiu para elas, a esmagadora maioria dos cidadãos, já que é com seu dinheiro que o Estado intervém e muitos perdem o emprego, a casa e a pensão.
Mas muito mais mudará. Primeiro, o declínio dos EUA como potência mundial atinge um novo patamar. Este país acaba de ser vítima das armas de destruição financeira massiça com que agrediu tantos países nas últimas décadas e a decisão 'soberana' de se defender foi afinal induzida pela pressão dos seus credores estrangeiros (sobretudo chineses) que ameaçaram com uma fuga que seria devastadora para o actual american way of life.
Segundo, o FMI e o Banco Mundial deixaram de ter qualquer autoridade para impor as suas receitas, pois sempre usaram como bitola uma economia que se revela agora fantasma. A hipocrisia dos critérios duplos (uns válidos para os países do Norte global e outros válidos para os países do Sul global) está exposta com uma crueza chocante. Daqui em diante, a primazia do interesse nacional pode ditar, não só proteção e regulação específicas, como também taxas de juro subsidiadas para apoiar indústrias em perigo (como as que o Congresso dos EUA acaba de aprovar para o setor automóvel).
Não estamos perante uma desglobalização mas estamos certamente perante uma nova globalização pós-neoliberal internamente muito mais diversificada. Emergem novos regionalismos, já hoje presentes na África e na Ásia mas sobretudo importantes na América Latina, como o agora consolidado com a criação da União das Nações Sul-Americanas e do Banco do Sul. Por sua vez, a União Européia, o regionalismo mais avançado, terá que mudar o curso neoliberal da atual Comissão sob pena de ter o mesmo destino dos EUA.
Terceiro, as políticas de privatização da segurança social ficam desacreditadas: é eticamente monstruoso que seja possível acumular lucros fabulosos com o dinheiro de milhões trabalhadores humildes e abandonar estes à sua sorte quando a especulação dá errado. Quarto, o Estado que regressa como solução é o mesmo Estado que foi moral e institucionalmente destruído pelo neoliberalismo, o qual tudo fez para que sua profecia se cumprisse: transformar o Estado num antro de corrupção.
Isto significa que se o Estado não for profundamente reformado e democratizado em breve será, agora sim, um problema sem solução. Quinto, as mudanças na globalização hegemônica vão provocar mudanças na globalização dos movimentos sociais que vão certamente se refletir no Fórum Social Mundial: a nova centralidade das lutas nacionais e regionais; as relações com Estados e partidos progressistas e as lutas pela refundação democrática do Estado; contradições entre classes nacionais e transnacionais e as políticas de alianças.
Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3981

Sobre a crise financeira do capitalismo - Karl Marx




"Em um sistema de produção em que toda a trama do processo de reprodução repousa sobre o crédito, quando este cessa repentinamente e somente se admitem pagamentos em dinheiro, tem que produzir-se imediatamente uma crise, uma demanda forte e atropelada de meios de pagamento.

Por isso, à primeira vista, a crise aparece como uma simples crise de crédito e de dinheiro líquido. E, em realidade, trata-se somente da conversão de letras de câmbio em dinheiro. Mas essas letras representam, em sua maioria, compras e vendas reais, as quais, ao sentirem a necessidade de expandir-se amplamente, acabam servindo de base a toda a crise.
Mas, ao lado disto, há uma massa enorme dessas letras que só representam negócios de especulação, que agora se desnudam e explodem como bolhas de sabão, ademais, especulações sobre capitais alheios, mas fracassadas; finalmente, capitais-mercadorias desvalorizados ou até encalhados, ou um refluxo de capital já irrealizável. E todo esse sistema artificial de extensão violenta do processo de reprodução não pode corrigir-se, naturalmente. O Banco da Inglaterra, por exemplo, entregue aos especuladores, com seus bônus, o capital que lhes falta, impede que comprem todas as mercadorias desvalorizadas por seus antigos valores nominais.
No mais, aqui tudo aparece invertido, pois num mundo feito de papel não se revelam nunca o preço real e seus fatores, mas sim somente barras, dinheiro metálico, bônus bancários, letras de câmbio, títulos e valores.
E esta inversão se manifesta em todos os lugares onde se condensa o negócio de dinheiro do país, como ocorre em Londres; todo o processo aparece como inexplicável, menos nos locais mesmos da produção."

Fragmento de "O Capital", Volume 3, Capítulo 30, Capital-dinheiro e capital efetivo, Karl Marx.

O capitalismo chega a seu fim? (Tradução de Valdemar Sguissardi)


Le Monde , Paris, 12.10.08.
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Entrevista concedida por Immanuel Wallerstein, pesquisador do Depto de Sociologia da Universidade de Yale, EUA, ex-presidene da Associação Internacional de Sociologia
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  • O capitalismo chega a seu fim

Le Monde: Signatário do Manifesto do Fórum Social de Porto Alegre (“Doze proposições para um outro mundo possível”), em 2005, o Sr. é considerado um dos inspiradores do movimento altermundialista. O Sr. fundou e dirigiu o Centro Fernand-Braudel para o estudo da economia dos sistemas históricos e das civilizações, da Universidade do Estado de Nova Yorque, em Birghamton. Como o Sr. situa a crise econômica e financeira atual no “tempo longo” da história do capitalismo?
Immanuel Wallerstein: Fernand Braudel (1902-1985) distinguia o tempo da “longa duração”, que vê se sucederem na história humana sistemas regendo as relações do homem com seu meio ambiente material e, no interior dessas fases, o tempo de ciclos longos conjunturais, descritos por economistas como Nicolas Kondratieff (1882-1930) ou Joseph Schumpeter (1883-1950). Estamos hoje claramente numa fase B de um ciclo de Kondratieff, que começou há trinta ou trinta e cinco anos, após um fase A, que foi a mais longa (de 1945 a 1975), dos quinhentos anos da história do sistema capitalista.
Numa fase A, o lucro é gerado pela produção material, industrial ou outra; numa fase B, o capitalismo deve, para continuar a produzir lucro, financeirizar-se e refugiar-se na especulação. Há mais de trinta anos, as empresas, os Estados e as famílias endividam-se massivamente. Estamos hoje na última parte de uma fase B de Kondratieff, quando o declínio virtual torna-se real, em que as bolhas explodem umas após outras: as falências multiplicam-se, a concentração do capital aumenta, o desemprego avança e a economia conhece uma situação de deflação real.
Mas, hoje, este momento do ciclo conjuntural coincide com – e conseqüentemente o agrava – um período de transição entre dois sistemas de longa duração. Penso que de fato entramos, há trinta anos, na fase terminal do sistema capitalista. O que fundamentalmente diferencia esta fase da sucessão ininterrupta dos ciclos conjunturais anteriores é que o capitalismo não consegue mais “tornar-se sistema”, no sentido que lhe dá o físico e químico Ilya Prigogine (1917-2003): quando um sistema, biológico, químico ou social, desvia-se demais e muito freqüentemente de sua situação de estabilidade, não consegue mais reencontrar o equilíbrio, e, então, se observa uma bifurcação.
A situação torna-se caótica, incontrolável pelas forças que a dominaram até então, e vê-se emergir uma luta, não mais entre os “donos” e os adversários do sistema, mas entre todos os atores para determinar o que o vai substituir. Eu reservo o uso do termo “crise” a este tipo de período. Pois bem, estamos em crise. O capitalismo chega a seu fim.
Le Monde: Por que não se trataria antes de uma nova mutação do capitalismo, que já conheceu, além de tudo, a passagem do capitalismo mercantil ao capitalismo industrial; depois, do capitalismo industrial ao capitalismo financeiro?
Immnuel Wallerstein: O capitalismo é onívoro, obtendo o lucro onde ele seja maior num momento dado; não se contenta com pequenos lucros marginais; ao contrário, maximiza-os criando monopólios – ainda recentemente tentou fazê-lo nas biotecnologias e nas tecnologias da informação. Mas eu penso que as possibilidades de acumulação real do sistema atingiram seu limite. O capitalismo, desde seu nascimento na segunda metade do Século XVI, nutre-se do diferencial de riqueza entre um centro, para onde convergem os lucros, e as periferias (não necessariamente geográficas) cada vez mais empobrecidas.
Desse ponto de vista, a recuperação econômica da Ásia do Leste, da Índia, da América Latina constitui um desafio insuperável pela “economia-mundo” criada pelo Ocidente, que não consegue mais controlar os custos da acumulação. As três curvas mundiais dos preços – da mão-de-obra, das matérias-primas e dos impostos – estão, por tudo, em forte alta há decênios. O curto período neoliberal que está se acabando inverteu apenas provisoriamente a tendência: ao final dos anos 1990 esses custos estavam, é verdade, menos elevados quem em 1970, mas estavam muito mais altos que em 1945. Na verdade, o último período de acumulação real – os “trinta anos gloriosos” – somente foi possível porque os Estados keynesianos colocaram suas forças a serviço do capital. Mas, ainda então, o limite foi atingido!
Le Monde: Há precedentes da fase atual, como o Sr. as descreve?
Immanuel Wallertein: Existiram muitos na história da humanidade, contrariamente à imagem, forjada nos meados do Século XIX, de um progresso contínuo e inevitável, inclusive em sua versão marxista. Prefiro me apoiar na tese da possibilidade do progresso, não na de sua inevitabilidade. Certamente, o capitalismo é o sistema que soube produzir, de forma extraordinária e marcante, o máximo de bens e de riquezas. Mas é preciso olhar a soma de perdas – para o meio-ambiente, para as sociedades – que  engendrou. O único bem é aquele que permite obter, para o maior número de pessoas, uma vida racional e inteligente.
Dito isso, a crise mais recente, similar à de hoje, foi o desmoronamento do sistema feudal na Europa, entre os meados dos Séculos XV e XVI, e sua substituição pelo sistema capitalista. Esse período, que culminou com as guerras de religião, viu desmoronar as autoridades reais, senhoriais e religiosas sobre as mais ricas comunidades camponesas e sobre as cidades. Foi ali que se construíram, por tateios sucessivos e de forma inconsciente, soluções inesperadas cujo sucesso acabará por “fazer sistema”, apresentando-se pouco a pouco sob a forma do capitalismo.
Le Monde: Quanto tempo deverá durar a transição atual e no que poderá desembocar?
Immanuel Wallerstein: O período de destruição do valor que encerra a fase B de um ciclo de Kondratieff dura geralmente de dois a cinco anos antes que sejam reunidas as condições de entrada numa fase A, quando um lucro real pode novamente ser conseguido de novas produções materiais descritas por Schumpeter. Mas o fato de que essa fase corresponde atualmente a uma crise do sistema nos fez entrar num período de caos político durante o qual os atores dominantes, à testa das empresas e dos Estados ocidentais, farão tudo o que lhes é tecnicamente possível para reencontrar o equilíbrio, mas é muito provável que não o consigam.
Os mais inteligentes já têm compreendido que teria sido necessário fazer qualquer coisa de inteiramente novo. Mas múltiplos atores já estão agindo, de forma desordenada e inconsciente, para fazer emergirem novas soluções, sem que se saiba inda qual sistema surgirá desses tateios.
Estamos numa período, bastante raro, no qual a crise e a impotência dos poderosos deixam um lugar ao livre arbítrio de cada um: existe hoje um lapso de tempo durante o qual cada um de nós tem a possibilidade de influenciar o futuro por nossa ação individual. Mas como este futuro será a soma do número incalculável destas ações, é absolutamente impossível prever que modelo finalmente se imporá. Dentro de dez anos, pode ser que se veja mais claro; dentro de trinta ou quarenta anos, um novo sistema terá emergido. Creio que é possível tanto ver instalar-se um sistema de exploração, infelizmente, ainda mais violento que o capitalismo, quanto ver, ao contrário, instalar-se um modelo mais igualitário e redistributivo.
Le Monde: As mutações anteriores do capitalismo têm muitas vezes desembocado sobre um deslocamento do centro da “economia-mundo”, por exemplo da bacia mediterrânea para a costa atlântica da Europa, depois para a dos EUA? O sistema por vir estará centrado na China?
Immanuel Wallerstein: A crise que vivemos corresponde também ao fim de um ciclo político, o da hegemonia americana, desencadeada igualmente nos anos 1970. Os EUA continuarão sendo um ator importante, mas não poderão jamais reconquistar sua posição dominante em face da multiplicação dos centros de poder, com a Europa ocidental, a China, o Brasil, a Índia. Um novo poder hegemônico, se a gente se refere ao tempo longo braudeliano, pode levar ainda cinqüenta anos para se impor. Mas eu ignoro qual.
Enquanto se espera, as conseqüências políticas da crise atual serão enormes, na medida em que os “donos” do sistema irão tentar encontrar bodes expiatórios para o desmoronamento de sua hegemonia. Eu penso que a metade do povo americano não aceitará o que está se passando. Os conflitos internos vão, portanto, exacerbar-se nos EUA, que estão a ponto de se tornarem o país mais instável politicamente do mundo. E não esqueçais que nós, os americanos, estamos todos armados...
Depoimento recolhido por Antoine Reverchon.
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Tradução: Valdemar Sguissardi (Piracicaba, 18 de outubro de 2008)